segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

A GRUTA

Direitos autorais reservados







Haviam se mudado há pouco tempo. O sítio era muito aprazível. Recém casados, ambos gostavam do campo, por isso decidiram iniciar a vida em comum trocando a cidade pelo verde. Continuariam atendendo ao trabalho na metrópole, que não era longe, e tinham planos de ficar por ali uns bons anos, enquanto os filhos - o primeiro já estava a caminho - não necessitassem frequentar a escola.
O lugar era privilegiado. Proporcionava a facilidade dos encontros dominicais das duas famílias - dele e dela - tradição que eles cultivavam com carinho.
Em um desses domingos, após o almoço ao ar livre, o novo sitiante resolveu dar uma caminhada pelos arredores. A propriedade era muito grande, havia ainda muita terra para ser explorada, e ele nem mesmo a conhecia até a divisa mais distante.
Ainda não se afastara muito quando deparou com uma gruta, meio encoberta pela vegetação espessa, embora rasteira. Sua entrada, de pouca altura, obrigaria o “explorador” a vergar o corpo para ganhar o interior.
Quando viu aquela fenda na pedra imediatamente vieram-lhe à memória certos fatos de sua infância, até então esquecidos, relacionados com a exploração de uma gruta. Era só o que sabia, de nada mais se lembrava. E, coisa curiosa - veio-lhe um desejo quase infantil de aventurar-se caverna a dentro.
Agachou-se, entrou cautelosamente pela estreita fenda, mas logo constatou que não havia nada a explorar, uma vez que embora tenha deparado com um salão bastante espaçoso, não havia outras galerias que o incentivassem a continuar a aventura. Reforçaram-se as suas lembranças de menino, em outro lugar, outro sítio longe dali, onde nascera e vivera os primeiros anos de sua vida.
Deixou-se ficar, envolto na penumbra, examinando o teto e as paredes lisas, fantasiando encontrar grifadas na pedra inscrições paleolíticas de seus irmãos de outras eras. Escoou-se o tempo, sem que percebesse. Olhou para o relógio: hora e meia! Seus devaneios haviam ido longe demais.
Lembrou-se que já deviam estar todos preocupados com o seu desaparecimento, e procurou a saída.
Sua visão, entretanto, acostumada à escuridão, foi ofuscada pela claridade do dia, obrigando-o a fechar os olhos.
Quando tornou a abri-los, a cena que viu mais uma vez remeteu-o ao passado longínquo, à sua infância. Mas por que ? Nada havia demais naquele quadro: sua mulher, chorando, assustada com o seu desaparecimento, sua mãe, seu pai... todos naturalmente apreensivos. Desculpou-se, não devia ter-se isolado assim, não tinha sido intencional. Enfim, voltaram todos em sua companhia para continuarem gozando a alegria da reunião.
Mas para ele a domingueira havia acabado. Ao deparar com a cena de seus familiares na porta da gruta, relembrou nos seus mínimos detalhes os estranhos fatos ocorridos quando era menino, que haviam sido relegados a segundo plano por ele próprio, na época, como fantasias da idade. Preferiu silenciar. Ao menos até colocar a mente outra vez em ordem.
                               
O menino resolve explorar a gruta. Penetra-a, receoso e escolhe uma, entre as diversas galerias em torno do salão, para seguir em frente na sua irresponsável aventura.
Não anda muito, chega ao absolutamente escuro e tardiamente arrepende-se da empreitada. A gruta é um verdadeiro labirinto.Chora, desesperado, enquanto avança, com passos agora cautelosos, na total ausência de luz. Muito tempo anda sem rumo, e a sua angústia infantil parece estar chegando ao limite. Prestes a se deixar abater, percebe ao longe fraca claridade. Sem despregar os olhos da lusinha salvadora, que aumenta à medida que ele corre, não se preocupa com os empecilhos que possam existir, camuflados  na escuridão.
É realmente a saída. Quando chega a ela, é ofuscado por intensa claridade e pára, ofegante, para que seus olhos acostumem-se à claridade exterior. Ouve vozes. Vozes de pessoas preocupadas com a sua ausência. Mas quem são? Ninguém, naquele grupo, lhe é familiar. Sente-se adulto, mas sabe que não é. Continua a mesma criança de dez anos que se aventurou no desconhecido.
Começa, aos poucos, a ver o grupo que o espera. Vê uma mulher jovem, grávida, que o trata carinhosamente enquanto chora, aliviada, como quem passou por um bom susto. Uma senhora, já idosa, chama-o de meu filho. Sente que de alguma forma pertence àquele momento, mas nada compreende. Medrosamente volta para o interior da gruta, e se vê novamente envolto pela completa ausência de luz.
Refaz-se, aos poucos. Pensa em voltar e procurar aquela gente. Voltar ? Como, se nada vê ? O chão é liso e não há ruídos. Tateando pelas paredes e confiando que a altura da gruta seja suficiente segue adiante, sem rumo.
Novamente um pequeno ponto de luz aparece ao longe. Corre. É a saída. Torna a encontrar pessoas que o esperam com o mesmo ar preocupado, mas que o transformam em alegria incontida quando o vêem. Vê a mesma moça que vira antes, mais velha, acompanhada de um rapaz e de uma adolescente. Já não está grávida.
Não reconhece ninguém, e o local é também outro. Cai neve. Desta vez há um grupo grande, e não apenas os seus familiares, e um “oh!” de alegria e descontração escapa de todos, quando o vêem. Parece-lhe estar em uma estação de inverno. Examina-se. É forte e bem disposto, mas é muito mais velho, agora.
Conscientiza-se de que está vivendo outro tipo de aventura bastante diferente da que procurava o menino quando resolveu explorar a caverna.
E é também em consciência plena que desta vez volta ao seu refúgio. Refúgio tranquilo, escuro e silencioso, embora insondável. Caminha agora descontraído, sem medo de obstáculos que imagina inexistentes, pensando em qual seria seu novo contato com o mundo lá fora.
Não tarda a divisar novamente o ponto luminoso, que cresce com a sua aproximação. Já não corre para alcançá-lo. Mais um pouco e pode ver, na claridade, apenas uma velhinha, na qual reconhece agora a moça grávida da primeira excursão e a jovem senhora preocupada, da segunda. Ela ralha com ele, como quem admoesta uma criança, dizendo-lhe alguma coisa sobre a sua mania de desaparecer pela fenda daquela pedra, e que ele já não tem mais idade para estas brincadeiras de criança. Sente-se beirando os oitenta anos, embora, tanto quanto ela mesmo, com bastante vigor e saúde. 
Fica claro para ele que rápidos instantes de sua vida lhe estão sendo mostrados. Retorna à gruta, já familiarizado com as situações que se desenrolam nas suas tentativas de saída. Não sabe o que pretende com o retorno. Oitenta anos? Já não “viveria” por muito mais tempo, pensa. Imagina, pela lógica, que se novamente tentar sair será para presenciar os seus funerais.
E mais uma vez a luz se faz. Do lado de fora um casal o aguarda. Mas desta vez tudo é mesmo muito diferente. Um homem e uma mulher, que ele não conhece, vestindo roupas que nunca vira antes, chamam-no de “meu filho”. As mesmas brigas e preocupações de sempre. Ele é novamente criança, nos seus dez anos. Mas aqueles não são seus pais.


 Mais curioso do que assustado, desta vez resolve deixar a caverna, para tentar desvendar de uma vez por todas tanto mistério. Quando sai, se vê em uma elevação, de onde, longe, se avista o mar - que ele não conhecia, porque aos dez anos nunca havia feito uma viagem ao litoral. Se já estava começando a acompanhar o que seria uma progressão da sua vida, retornava, agora, às dúvidas do início.
Quem seriam aqueles que lhe sorriam com tanto carinho? Por que voltou a ser o menino de dez anos ?
Seus “pais” levam-no para uma casa que não é a sua. Um local diferente, com móveis e objetos de adorno que ele nunca havia visto antes. Tudo é muito agradável. Vê-se, de corpo inteiro, num grande espelho na sala. Mas não se reconhece. Não é o mesmo menino, tem outro rosto. Não veste apenas outra roupa, veste outro corpo também.
A viagem através da gruta parecia não ter fim. Não esperava ver a continuação da sua existência daquela maneira. Havia se preparado para assistir ao coro angelical das onze mil virgens, aguardando a sua última saída da toca. Não descartava também a possibilidade de vir a sentir o calor dos fornos rubros do inferno, de bocas abertas à sua espera, para todo o sempre. Mas... aquilo ? Por que novamente um menino?
Volta à gruta, o único lugar onde se sente seguro. É uma âncora no tempo. Aconchegado nas trevas, medroso e inseguro, sem nem mais a certeza de ser velho ou criança, imagina-se numa infinita caminhada, sem retorno, presenciando uma sucessão intérmina de corpos e aparências através das rápidas incursões no desconhecido, que a gruta vinha lhe proporcionando.
Parado, em pé, as mãos espalmadas sobre os olhos como se tentasse não ver as trevas, muito tempo se passa, tempo que lhe devolve a sensatez e o raciocínio para imaginar um meio de acabar com tão inusitadas excursões. Imagina que sua mente estava comandando-as. Logo, acha razoável que seja através dela que irá buscar a volta aos seus dez anos.
Começa, então, a se fixar no desejo de retornar à sua casa, ao convívio de seus pais. Concentra-se na sua família, no seu ambiente doméstico, nas suas roupas, seus brinquedos - tudo, enfim, que fazia parte de seu mundo infantil, daquela outra criança que bem conhecia, e não desta, de quem nunca tivera uma  só notícia.
Olha em todas as direções. E é num instante de maior concentração que novamente brota do desconhecido fraco ponto de luz. Mas desta vez também não corre, segue devagar.
Retorna à claridade. É o seu chão, a sua casa, o seu tempo. Radiante, corre para dentro de casa. Passa por sua mãe, atarefada com o almoço, e fecha-se no seu quarto. Chora, um choro infantil. Olha-se no espelho. É ele mesmo, outra vez. Não há dúvida, está em casa.

Mas o espírito infantil, imprudente e aventureiro era forte demais para encerrar por ali a fascinante experiência. Por isso, na manhã seguinte, após terminar a refeição matinal apressadamente, munido de um volumoso rolo de barbante e de uma lanterna de querosene, parte para tentar desvendar o mistério da gruta. Estava preparado para não se perder, desta vez, na escuridão.
Em frente à abertura da pedra amarra o barbante em arbusto próximo, acende a lanterna e enquanto desenrola pelo chão o novelo, penetra pela segunda vez o desconhecido, disposto a voltar com a curiosidade satisfeita...
Mas, para total decepção, não caminha mais do que dez metros. Tampouco a luz natural que ilumina a caverna se desfaz em trevas absolutas. Apaga a lanterna, solta o barbante e, na penumbra reinante, apenas um vasto salão se mostra à sua frustrada curiosidade, sem outras galerias ou comunicações, e não tem a menor dificuldade em distinguir a direção da fenda que lhe serviu de entrada. Em vão procura uma possível passagem dissimulada ou algo que justifique os acontecimentos da véspera. Desapontado volta para casa, sem conseguir entender porque foi protagonista de tão estranho episódio.
E jamais imaginaria que tudo retornaria com tanta lucidez à sua mente, trinta anos depois, após um festivo almoço com seus familiares...
                              
Enfim, estava de férias, e não eram férias comuns. Era mais uma extravagância financeira. Não tinha condições de se deslocar, com toda a família, para uma estação de inverno. Mas havia feito exatamente isto. Afinal, pensou, pouco faltava para completar sessenta anos, e embora saudável e bem disposto, achou que era hora de usufruir um pouco mais o tempo que lhe restava.
Endividou-se um pouco, até. Mas resolveu que todos juntos iriam conhecer e gozar as delícias da neve.
Naquela manhã, um grupo formado com os hóspedes do hotel faria uma excursão a pé pelos arredores e ele convocou os familiares para juntarem-se aos excursionistas. Uma caminhada na neve prometia ser um bom divertimento.
Sempre assessorado pelo prestimoso guia, o grupo já estava com meia hora de caminhada, quando ele foi se deixando ficar para trás, até se ver como o último da fila indiana. Fosse pela idade ou pelo seu espírito perquiridor, sempre atento às menores coisas que o rodeavam, acabou separando-se dos outros, embora não o suficiente, entretanto, para causar qualquer apreensão. Levava um cajado na mão e com ele ora ia medindo a profundidade da neve, ora soltando-a das pequenas encostas para vê-la rolar abaixo.
Quando passava por um trecho onde a aclividade era mais acentuada, debaixo de uma saliência de pedra, um grande bloco de neve desprendeu-se sobre a sua cabeça, e embora não o atingisse, enclausurou-o sob a rocha, que tornou-se um abrigo natural da pequena avalanche. Toneladas de neve tolhiam parcialmente seus movimentos e sua visão, mas estava bem. Passado o susto, examinou a situação e não se preocupou muito. A bolsa de ar que se formara era de bom tamanho e o manteria por algumas horas, tempo mais do que suficiente para que as providências de salvamento fossem tomadas.
Seus companheiros, com efeito, logo perceberam o acontecido. Mas estes sim, estavam preocupados - supunham-no soterrado na neve.
Logo veio o socorro. Após meia hora de angústia era vencida a barreira gelada, e para alegria de todos ele surgiu sem um só arranhão e respirando normalmente. Em uníssono, o grupo deixou escapar um - oh! - de alívio e alegria, por tê-lo de volta são e salvo.
Então, novamente a cena lhe era familiar...
Mais uma vez foi transportado à infância, relembrou a incrível aventura da gruta, o sítio de seus pais, a repentina luz que o cegava temporariamente e todas aquelas pessoas sorrindo de alívio...
Acompanhou os colegas de excursão na volta para o hotel, compartilhando da alegria, mas no íntimo divagando em seus pensamentos. No hotel, após ser obrigado a repetir várias vezes a história do acidente, instado pelos hóspedes, conseguiu se isolar a pretexto de um revigorante banho quente.
De uma coisa, agora, tinha quase certeza: após verem-se confirmados dois instantes de sua vida, de seu passado, pelo menos mais dois “flashes” de seu futuro lhe haviam sido mostrados. Não duvidava mais. E, se conhecia apenas estes dois momentos, teria sido porque ele próprio não tivera forças para continuar a viagem, que seria infinita através dos tempos...
Infinita, sim. Estava ficando tudo mais claro. Agora podia imaginar quem seria aquele outro menino. Sabia também que, se tivesse continuado com as suas explorações, haveria muitos e muitos meninos sucedendo-se através dos tempos, separados por túneis e grutas escuras - as próprias trevas em que estivera mergulhado até então.
Sabia também que ele, imortal, comandaria todas aquelas crianças, uma por uma, transformando-as em jovens e adultos, na constante busca da perfeição. Ele sempre fora e sempre haveria de ser o mesmo ser pensante que movimentaria aqueles veículos de carne, com os quais seria agraciado através dos tempos, em viagens que já não seriam por tão escuras cavernas...




terça-feira, 4 de janeiro de 2011

O VALE DAS ESTÁTUAS

Direitos Autorais Garantidos

     Eu era caixeiro-viajante. Nasci em mil oitocentos e oitenta e três, e a virada do século já me pegou no lombo do meu burrico, numa trilha no meio da mata fechada...
Trabalhei duro, por muito tempo. Tenho hoje quase sessenta anos, pelo menos quarenta deles muito bem vividos. Mas eu era um bom viajante... porque depois da minha última viagem, já não sou quase nada... Restou-me apenas uma história para contar, que agora divido com vocês. Muitos poderão não acreditar, mas eu estou aqui, firme, para dar o testemunho.
Minha área de trabalho era espinhosa, difícil, ainda mais que já se passaram uns bons anos desde que tudo aconteceu, e de lá para cá muita coisa mudou. Mas o Vale das Estátuas - fui eu quem o batizou assim - está lá no mesmo lugar, embora eu mesmo, se pudesse voltar, por certo não conseguiria achá-lo.
Imaginem o norte de Mato Grosso e Goiás, sul do Amazonas e Pará, há mais de quarenta anos atrás. Em 1913! Aquela zona que une os quatro estados, se hoje tem bons caminhos para carroças - e até mesmo charretes de luxo - tinha que ser percorrida em lombo de burro, tarefa que demandava de dois a três meses para ser cumprida por mim, que ia anotando pedidos e entregando encomendas pelas pequenas povoações por onde passava. Não eram cidades, apenas aglomerados de pouco mais de duzentos habitantes, que se irmanavam na dura tarefa de sobreviver, afastados de tudo e de todos, onde eu era a única ponte que os unia precariamente ao resto da civilização.

Eis a história da minha última viagem:
Já lá se vão alguns anos... Eu havia almoçado em A... e dirigia-me a B..., montado em meu animal - minha loja, meu escritório, minha casa e... meu amigo, porque com ele conversava todo o tempo, para amenizar um pouco a solidão.
Ia pensando nos meus negócios, quando resolvi tomar um atalho por dentro da mata. Chegaria a B... antes do anoitecer, a tempo de um banho frio e um bom papo com o pessoal amigo.
Não fui feliz, entretanto. Apesar de conhecer aquelas paragens como a palma da minha mão, e pensando seguir o que me parecia uma trilha de arrastar madeira, das que eu bem conhecia, embrenhei-me no mato - selva, melhor dizendo, pois a cinquenta metros afastado do caminho nada mais se via além da espessa vegetação. Tentei retornar, mas o mato envolveu-me como se estivesse vivo. E vi-me, de repente, com toda a minha experiência de mateiro e andante solitário, rodeado por aquele verde aterrador, onde nem a luz do sol conseguia penetrar.

  Mas ainda não me sentia perdido. Acostumado a me orientar de todas as maneiras imagináveis, é evidente que eu tinha uma bússola. Embora não visse o céu, sabia que era dia ainda e que o tempo estava firme. A bicharada estava quieta e também essa não me amedontrava, pois parecia conhecê-los um a um, e eles a mim. Estava tranquilo, embora aborrecido por ver meus planos alterados sem necessidade.
Continuei em frente, orientando-me como podia. Porém escoavam-se as horas e não estava fácil como eu pensava encontrar de novo o meu rumo. A bússola era de precisão, mais eu sabia que bastava a diferença de um ou dois graus para me desviar para outras paragens. A selva era quase impenetrável. Nenhum vestígio de civilização, e - curioso - tampouco de vida. Eu não ouvia os pássaros e nem os pequeninos bichos que tantas vezes corriam em frente à minha montaria. Tinha que me aviar, pois via a tarde avançar e dali a algumas horas seria noite. Então, aí sim, eu estaria perdido.
Estranhei o silêncio, que era absoluto. O mato tem mil ruídos, de dia ou à noite, e eu não conseguia ouvir nada, embora apurasse a audição. Nenhum som. Nem mesmo o murmúrio das águas de algum riacho. Parei, desci do animal e mantive-me imóvel. Exceto o resfolegar do jegue e o farfalhar das folhas, agitadas por leve brisa, nada mais se ouvia. Eu já estava andando pela floresta por mais de três horas. O calor úmido, abafado, começava a me causar mal estar.
O caminho tornara-se íngreme e escarpado, descendo sempre. O animal começou a sentir dificuldades no trajeto. Bastante pesado, devido à carga que levava, vez por outra se desequilibrava, resvalando perigosa-mente. Eu já o havia aliviado do meu peso e ia puxando-o pelo cabresto, escolhendo o melhor caminho.
Porém uma falha do terreno, encoberta pela folhagem abundante, fê-lo perder o equilíbrio de vez. E rolamos, eu e ele, pelo despenhadeiro, aos trancos e barrancos, pois tentando salvá-lo emaranhei-me na corda do cabresto e acabei sendo arrastado pelo bicho, enquanto meu escritório e minha mercadoria iam sendo espalhados irremediavelmente pelo terreno íngreme. Dezenas de metros abaixo estancamos, no fim da linha. Eu, milagrosamente salvo; meu fiel companheiro de tantas viagens, morto.
Estonteado, refazendo-me da queda, apesar de sentir todos os ossos moídos, constatei estar sem um arranhão. Segui o trajeto da minha queda morro acima com o olhar, e não consegui sequer ver o local de onde despencara. Afastei logo qualquer possibilidade de recuperar meus bens. O terreno era muito hostil. Sentado no chão, com os cotovelos apoiados nos joelhos e o rosto escondido entre as mãos, sozinho dentro daquele inexplicável silêncio, permaneci por um bom tempo refazendo-me do susto, das dores e do inusitado da situação. Quando finalmente baixei as mãos, deparei com uma paisagem bastante diferente da que eu havia deixado lá em cima.
O terreno era relativamente plano, escasseava a mata e os restos de sol da tarde já conseguiam atingir o chão. O silêncio, entretanto, continuava. Não havia vivalma naquela terra.
Entretanto, embora a sensação de solidão e abandono fosse muito forte, aquele sítio dava a impressão de já ter tido trato algum dia. E eu não estava errado, como ia constatar logo depois. Levantei-me e comecei a caminhar - dolorido e cansado, escaldado pelo calor e morto de sede - por entre os arbustos, que cada vez mais rareavam, quando tropecei em uma pequena pedra, um tanto estranha. Branca como mármore, bastante alongada e com uma das extremidades meio arredondada, chamou-me a atenção. Apanhei-a, para examiná-la melhor. Era parte de uma escultura, uma mão cerrada, quebrada na altura do punho, e com um anel de ouro, como sendo uma aliança, incrustado no anular. Perguntei-me onde estaria o resto daquela estátua, perdida não sei por que naquelas paragens. Logo fervilhou-me a mente, com a lembrança do lendário Eldorado, das guerreiras amazonas ou de alguma outra dessas civilizações perdidas das quais de vez em quando se tem notícia.
Alguma coisa eu havia descoberto, sem dúvida. A escultura era algo incomum. Em tamanho natural, mostrava os detalhes anatômicos com incrível perfeição. As veias, os poros e as dobras da pele eram realmente trabalho de um hábil artista. A aliança, perfeitamente encaixada no dedo. Havia calos nas mãos! Uma obra co-mo eu nunca vira. Como teria parado ali? Onde estaria o restante daquela estátua? Recolhi a peça, maravilhado, sem imaginar quantas outras surpresas me esperavam.
Logo adiante, com efeito, deparei com outra escultura. Desta vez, completa. Era um menino, deitado sobre o braço esquerdo, fazendo as mãos de travesseiro, em posição de sono tranquilo. Perfeito em tudo, como no achado anterior. Certamente eram obras do mesmo exímio artista.
Mas não era só. Havia mais, muito mais. Adiante uma moça, mais além um jovem. Todos em posições relaxadas, recostados ou deitados. E completamente nus. Na preocupação de deixar gravados todos os detalhes do corpo humano, o autor daquelas obras não se preocupou em modelar nos corpos nenhuma espécie de vestimenta. A perfeição era tanta que chegava a incomodar. Tinha-se a impressão de que seres humanos haviam sido transformados em alvo mármore. Uma perfeita estatuária em plena selva! Obras maravilhosas, espalhadas pelo terreno a pouca distância umas das outras, todas da mesma rara beleza. Corpos libertados de suas vestes, mostrando o completo domínio do artista ao perenizar sua anatomia.
Tão maravilhado estava com as esculturas, que apesar do calor e da sede que me torturava não percebi que atravessara claro e límpido regato, o primeiro curso d’água que via em muitas horas.
Continuei a caminhada. Os altos e grossos troncos das árvores da selva, como disse, davam lugar aos arbustos e à vegetação rasteira de uma enorme planície. Livrando-me dos galhos que tolhiam a passagem, deparei, de repente, ainda um tanto distante, com os fundos de um grande casarão, majestoso, com seu porão em arcos e circundado de varandões no piso superior. Era uma típica construção setecentista, autêntica casa de fazenda da primeira época do Brasil-colônia. Infelizmente, carcomida pelo abandono. Eu estava entrando por trás da propriedade, pelo imenso pátio de serviço. 


 Que teria havido para que seu dono - presumi – tivesse permitido que sua fazenda e sua arte ficassem entregues a tanto abandono? Como eu nunca havia ouvido falar daquele sítio, nas minhas andanças? Não poderia estar tão longe dos meus roteiros de viajante. Todos esses lugares, parecendo abandonados, são geralmente legendários, às vezes temidos e sempre respeitados. Eu conhecia-os todos, exceto aquele. Já há tantos anos viajando por aquelas paragens e jamais havia ouvido uma só menção àquele lugar, imponente ruína que guardava maravilhosas esculturas e talvez intrigantes mistérios.
Aproximei-me sem medo. Afinal, o silêncio era sepulcral e nada indicava existir ali qualquer forma de vida, o que, aliás, vinha me intrigando. Já agora bem perto, percebi que era total o abandono. Somente as espessas paredes de cantaria não haviam cedido aos rigores do tempo. Desabara o telhado e restos de portas e janelas pendiam de uma ou outra dobradiça ainda renitente.
Mas as estátuas, estas povoavam todo aquele ambiente fantástico. A sempre presente posição de relaxa-mento mostrava que talvez o artista tivesse se deixado contaminar pela calmaria e pelo silêncio reinante. Cães e gatos e outros animais foram também perenizados. Em todos, a mesma perfeição, a arte e a técnica combinando-se magistralmente.
 Passaram-se as horas. Foi-se o sol e aos poucos o lusco-fusco do entardecer deu lugar à noite de lua nova, um tanto assustadora em seu negrume imerso em silêncio. Já nada mais se via. Eu não tinha sequer um fósforo que me libertasse da escuridão. Tateando, procurei um desvão na arcada do porão e aconcheguei-me como pude. Por certo não dormiria. Estava muito excitado para entregar-me ao sono, ansioso para a volta da claridade e a continuação da minha exploração.
Mas dormi, embalado pelo cansaço. Quando acordei o sol já ia alto. O calor não diminuíra, e a sede e a fome fustigavam-me. Lembrei-me então do riacho que havia visto na entrada da fazenda. Voltei lá, aproveitando o trajeto para melhor reexaminar as obras de arte. Enquanto saciava a sede no regato, atentei para um fato: embora sem qualquer panejamento sobre os corpos, as estátuas pareciam representar figuras de épocas diversas. Diferentes tipos de penteados mostravam a preocupação do artista em situar as figuras distantes, umas das outras, no tempo. Dos complicados arranjos nos cabelos femininos, característicos de séculos passados, aos cortes mais simples predominantes em nossa época. Das posturas severas e cerimoniosas, mesmo nas posições de descanso de algumas peças, ao descontraído relaxamento de outras, típicos de nossos dias, tudo sugeria a intenção do artista de gravar diferentes momentos da história.
No porão da casa, que era o local mais atingido pelos estragos provocados pelo passar dos anos encontrei uma peça diferente, aliás a única que destoava de tão harmoniosa quanto estranha coleção. Representava um homem, com terrível máscara de horror estampada na face, semideitado e segurando com as duas mãos a perna direita, como se torturado por insuportável dor. A escultura, entretanto, não mostrava qualquer ferimento.
Pus-me a imaginar por que aquela peça fugia tanto dos padrões adotados que vira até então, sem sucesso.
Resolvi tentar seguir viagem. Voltaria mais tarde, em caravana, pois não faltariam aventureiros para tal façanha. Por enquanto, dava-me por satisfeito. Não sei porque nem por um instante pensei em comercializar aquela arte, contrariando os meus impulsos de vendedor inato.
Comi alguns frutos silvestres, enchi meu cantil, prevendo a canícula que se prenunciava, e passei a explorar o terreno em volta, deliberando tomar sentido contrário ao que eu chegara, uma vez que seria quase impossível escalar a escarpa por onde tinha caído.
Parti. Mas havia dado poucos passos quando descobri, no meio da vegetação, o que me pareceu um caminho pavimentado, largo, que começava na direção do casarão. Seria ali, por certo, a entrada da fazenda, e não onde eu tinha imaginado.
Mas as surpresas ainda estavam a meio. Mais adiante deparei com outra estátua, com os mesmos esgares de pavor daquela que vi no porão. Esta, porém, tinha os olhos fixos nas mãos espalmadas. Outra, mais além, parecia contorcer-se no chão. Encolhida, em posição fetal, segurando os pés, os dentes horrivelmente trincados.
“Que estranho artista!”, pensei. As recentes descobertas começavam a provocar em mim um certo desconforto, que eu teimava em não perceber, e que já me fazia agora fugir daquelas pétreas figuras, a princípio tão descansadas no seu sono e agora tão angustiadas em sua dor.
Meio dia. Continuava seguindo a estreita estrada pavimentada, agora em uma clareira quase sem vegetação. De repente o caminho desapareceu em meio ao que me pareceu ter sido um desmoronamento da íngreme escarpa que o ladeava. A única saída estava bloqueada pela terra despencada do alto. Ao longe a floresta impenetrável, em um plano mais alto que circundava toda a fazenda, parecia indicar que aquelas terras situavam-se em uma impossível cratera vulcânica. O lugar era quase inacessível, e fora por mim descoberto casualmente, e depois de um belo tombo. Talvez por isso nunca ninguém houvesse comentado nada a respeito.
De repente, outra figura. Esta, de uma mulher assustadoramente sofrida como todas as outras, mas transmitindo-me resignação em sua dor, como que aguardando, serena, sua morte. Sua fisionomia, magistralmente esculpida, lembrava-me uma moça que cnheci, há muitos anos, em A... Fui tomado por um misto de admiração e pavor pelo enigmático artista. Foi a última obra que vi.
Apressei o passo. Estava de novo dentro da mata espessa. Teria que procurar um local de menos difícil acesso que me permitisse escalar o paredão que me livraria daquele vale de tão estranhas estátuas. Continuava a ausência de vida de qualquer espécie, e o solo seco mostrava ser o regato onde me abasteci, a única fonte das redondezas. Lembrei-me do cantil e sorvi um pequeno gole, apesar da sede. Afinal não sabia por quanto tempo precisaria racionar tão precioso líquido.
Por fim surgiu um sítio que me facilitaria a subida. Minhas pernas doíam muito, pareciam inchadas. Havia caminhado toda a manhã, comendo apenas um ou outro fruto que recolhia no caminho e quase sem beber do cantil. Sentia-me fraco, doíam-me também as mãos, pois vinha abrindo caminho no mato sem um facão ou qual-quer outra ferramenta.
Calculei que quase uma centena de metros ainda me separavam do topo. Reuni minhas forças e comecei a subida.
Muitas vezes rolei abaixo, outras tantas recomecei. Caía e machucava-me, mas as quedas davam-me forças para conquistar cada metro do paredão. As dores aumentavam, sentia as mãos quase sem movimento. Horas depois, mais morto do que vivo, cheguei ao topo. Escurecia, outra vez. Pela segunda noite dormiria ao re-lento. Agora, no entanto com menos tranquilidade, pois  curiosamente, comecei a ouvir novamente os ruídos da mata, que me eram tão familiares. Se me sentia alegre, por ver que novamente a vida regurgitava em torno de mim, preocupava-me a possível presença de bichos maiores, que poderiam não ser tão amigos...
Uma espécie de alívio trazido pelos sons envolveu-me o cansaço, estranho alívio no meio de tantas dores, que aumentavam com o passar das horas. Deixei-me adormecer assim mesmo, confiando que não seria molestado e na esperança de que na manhã seguinte as dores nas pernas e nos braços houvessem desaparecido.
Acordei, entretanto, como quem acorda de um pesadelo. Melhor dizendo, como quem ainda está nele,
pois as dores cruciantes haviam recrudescido, tomando conta de meus pés e de minhas mãos. Era quase impossível mover-me.
Ainda povoavam-me a mente todas aquelas esculturas. Imaginei estar tomando a mesma posição de descanso em que elas foram esculpidas. A lembrança impressionou-me tanto que me levantei, de um salto.
Foi então que constatei, horrorizado, que, se mal podia movimentar-me, era porque meus pés e minhas mãos estavam petrificados, transformados em massas de pedra idênticas às que vira na antiga fazenda! Cada uma das minhas extremidades parecia-me pesar cem quilos! Os braços e os ombros pendiam, vergados, sob o peso das mãos, enquanto eu me sentia preso ao chão por blocos de alva e rígida pedra calcária!
Não sei como narrar o pavor que se apoderou de mim. Lembrei-me das estátuas que vi durante a minha fuga, transmitindo a mesma angústia que eu começava a sentir.
Olhando para minhas mãos, para aquelas esculturas anatomicamente perfeitas, repetia as mesmas palavras, à exaustão, tentando convencer a mim mesmo com o que eu queria que fosse uma verdade: “Houve um escultor... Eu sei que houve... Isso não está acontecendo...” E repetia, em voz alta, dezenas e dezenas de vezes a mesma frase: “Um escultor... Um escultor... Tem que ter havido...”
Mas os blocos de mármore não eram estátuas... não eram obras maravilhosas de nenhum talentoso artista...
Ninguém os esculpira...
Todos os seres vivos que tiveram a infelicidade de atravessar aqueles sítios haviam sido transformados em pedras frias, inertes... Homens, animais, pássaros, insetos... enfim, todas as formas de vida daquele lúgubre vale, através de muitos séculos, estavam agora mudas para sempre, em terrível testemunho de inexplicável tragédia.
E eu seria mais um condenado à execução.
Talvez nem mais acordasse, como tantos outros que vi naquele lugar macabro, surpreendidos por tamanha desgraça em inocente repouso...
Mas eu não me entregaria. Resoluto, movi-me, mesmo debaixo de intensa dor. Estava resolvido a não me deixar abater, e as incríveis e desconhecidas reservas de força que tem o ser humano vieram à tona. Levantei-me e pus-me a caminhar. Cada passo custava-me eternos minutos, preciosas horas eram despendidas em poucos metros. Arrastava pés e mãos no solo, tentando erguer toneladas em cada movimento. Delirava. Febre e pavor. Numa das muitas quedas, minha mão esquerda desprendeu-se do braço, como uma pedra solta que rola pelo chão. Deixei escapar terrível urro de angústia - pois não era possível haver dor maior do que a que já sentia.
Ainda lembrei-me do meu primeiro achado, aquela mão portando um anel... Alguém já havia passado pelo mesmo terror pelo qual eu estava passando.
Como era possível sentir alívio, quando me vi despojado do peso daquela mão petrificada, que agora jazia no solo? Mas foi o que senti. É incrível como a desgraça pode ser vista de ângulos tão diferentes...
Não sei por quanto tempo vaguei, e tampouco vi quando me encontraram. Estava dementado, soube depois, extremamente longe de A... e de B..., arrastando pela terra os restos de meu corpo, balbuciando palavras sem nexo, sem mãos e sem pés, impulsionado pela firme idéia de não me deixar sucumbir.

Recuperei a consciência e a razão no hospital de C..., para onde fui levado. O médico, obviamente não acreditava em nada do que lhe contei, ainda debaixo de forte e incontrolável emoção, preferindo creditar a minha história ao estado de demência em que me encontrava. Mas não sabia como explicar as mutilações que eu havia sofrido.
Num canto da enfermaria, sobre uma cadeira estavam os meus pertences: apenas o embornal e o cantil. As roupas, em frangalhos, haviam sido queimadas pelos funcionários do hospital.
O mistério não me satisfazia. Apesar do horror que todas aquelas lembranças me infundiam procurei reconstituir, passo a passo, a minha incrível experiência, na tentativa de solucionar a tragédia que se abatera sobre mim. Que haveria naquele vale, que vinha provocando tão terríveis mutações em todos os seres vivos que o atravessassem, e desde épocas remotas? Por certo a fazenda algum dia havia sido próspera, como atestavam as ruínas de suas instalações. Que tamanha desgraça se havia abatido sobre aquelas plagas? Eu não conseguia sequer pensar em algo que fosse, ao menos, plausível. Entretanto ali estava eu, único sobrevivente, sem pés e sem mãos. E eu era real.
Aos poucos, algumas idéias começaram a fazer sentido, ao menos para mim. Veio-me à mente o regato de águas cristalinas, única fonte que parecia suprir toda a região, um vale como que “afundado” no meio do planalto tão conhecido de minhas andanças. A água, de aparência tão límpida, poderia ter sido, de alguma for-ma, contaminada? Mas por qual estranha e mortífera substância ?
Lembrava-me de ter bebido muito pouco, e talvez por isso o processo de calcificação houvesse estacionado, afetando-me apenas as extremidades dos membros.
E ali estava, em cima da cadeira, ao lado do meu leito, o cantil ainda quase cheio.
Não conseguia convencer o médico com a minha absurda teoria. Mas não pedia muito. Queria apenas que ele analisasse o líquido, muito embora consciente de que não havia como pesquisar nada além de coloração, cheiro característico e sabor. Os laboratórios daquela época eram pálida sombra destes dos nossos dias. Mas ele me dizia ser impossível existir algo tão poderoso capaz de produzir uma mutação daquele teor. Definitivamente ele não me daria crédito. Irritei-me, embora consciente de que ele salvara a minha vida, pensando-me as amputações: “Então beba do meu cantil !” - disse-lhe, desaforado.
Ele olhou-me muito sério, demoradamente, e imaginei receber de volta merecida descompostura. Mas, não; após demorada pausa, respondeu-me: “Você acabou de me dar uma boa sugestão. Mas não se preocupe, não vou beber desta água.” E saiu da enfermaria, às pressas, sobraçando o cantil.

Guardo até hoje as pequenas 'estátuas' das pobres cobaias que validaram a minha inusitada teoria. O doutor guarda, também, a sete chaves, o que restou da água do meu cantil, na esperança de que, algum dia, no futuro, a ciência possa explicar a composição daquele líquido assassino, e o que causou contaminação tão violenta.
Jamais consegui orientar-me o suficiente para que cientistas e curiosos pudessem retornar àquele vale, embora não me faltasse coragem para fazê-lo, porque além do tétrico riacho, que vinha sorvendo vidas e mais vidas ao longo de três séculos, nada mais havia a temer no Vale das Estátuas.
Geólogos formularam teorias, químicos os apoiaram. Mas nenhum deles devolveu-me minhas mãos e meus pés, que ficaram pelo caminho, para sempre lembrando-me a terrível ‘via crucis’ que me marcou para sempre.
Lembrei-me da moça, cuja pétrea figura julgava haver reconhecido, quando deixava as ruínas. De volta a A..., perguntei por ela a um velho conhecido meu. E ele contou-me que certo dia, há muito tempo, ela havia saído do lugarejo em direção a B..., em busca de socorro médico para um parente, e desde então a família pranteava o seu misterioso desaparecimento.
“Mas isso já foi há muito tempo... Bem uns vinte anos...” - disse-me ele.
Mas o que eram vinte anos, para aquela água asas-sina?
Antes, bem antes de mim, quando ambos éramos ainda jovens, ela havia encontrado o Vale das Estátuas...  





quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

BOITE-SHOW

Direitos autorais reservados


Quando a campainha da porta soou Maurício levantou os olhos da “Revista do Fluminense”. Quem seria? A noite estava chuvosa e quente, convidando ao repouso. Ele estava sozinho, preso em casa por uma forte gripe. Portanto, fosse quem fosse, seria bem vindo para uma boa conversa. Levantou-se da poltrona, com a lentidão que seu estado febril lhe permitia e foi atender a porta.
Era o Murilo.
- Posso entrar?
- Olá, Murilo! Vamos entrando... Que bom você ter se lembrado de seu amigo!
- Soube que você está adoentado. O que é? Não me parece tão mal assim.
- Não é nada, apenas uma gripe. Só que ela me pegou de jeito, por isso estou aqui de molho, por recomendação médica.
- É o melhor que você faz. Ainda mais com essa noite chuvosa...
Murilo entrou. No meio da sala antigo baú, aberto, tinha espalhado à sua volta o heterogêneo conteúdo. Eram fotos, revistas, pequenos objetos, papéis em quantidade. Enfim, a velharia típica que recheia velhos baús.
- Mas o que é isto? Altas arrumações?
- Você não queira saber... Eu estava aqui numa verdadeira sessão nostalgia. Aproveitei o descanso forçado para revirar este baú. Murilo, aqui há coisas guardadas há trinta anos! Se você me perguntar para que, nem eu mesmo sei. Mas, sabe? Trinta anos depois estas coisas começam a ficar curiosas.
- Um baú de trinta anos! Você era bem novo, não?
- Tinha meus vinte anos. Estou com cinquenta e três... Trinta e três anos, para ser mais preciso.
Murilo cruzou os braços e correu os olhos por tudo aquilo espalhado pelo chão. Não era uma caixa muito grande e as reminiscências iam ainda a meio, mas a desarrumação, esta já era total.
- E eu posso saber o que guardou para o futuro um jovem de vinte anos?
Maurício sorriu. Quantas coisas havia guardado! Abaixou-se e do meio daquela papelada apanhou um caderno. “Hora H”. Bastava a capa - dois estudantes chegando à escola e apontando para um enorme relógio por trás do prédio - para reiniciar o processo nostálgico interrompido. Estendeu-o ao amigo :
- Veja, Murilo. Poesias. Você sabia que já fui poeta?
- É, você tinha uns dotes literários. Mas poeta mesmo, é um pouco demais...
Enquanto ele folheava o caderno, interessado nos dotes do amigo, Maurício apanhou novamente o boletim do clube.
-Quando você chegou eu estava querendo me lembrar por que diabos eu teria guardado esta revista.
Murilo trocou o caderno pela revista.
- É um exemplar da “Revista do Fluminense”. Janeiro de 52. Circulava apenas entre os sócios com a programação social do mês, além de outros assuntos. Devo tê-la guardado pelo mesmo motivo que guardei todos esses objetos: para nada.
- Bem me lembro dela. Talvez esteja aqui o motivo, veja: está sublinhado o dia 19, um sábado - e houve uma “boite-show” nesse dia.
- Não tinha reparado. Deixe ver.
Murilo devolveu-lhe a revista.
- Realmente. Lembra ? Naquela época havia uma festa dessas por mês, e sempre aos sábados.
- Curioso.
- Por que curioso? Até hoje os sábados são dias preferidos para festas.
- Não, não é isso, Maurício. O que achei curioso é que hoje também é sábado, e também 19 de janeiro. Trinta e três anos depois, os dias da semana coincidem.
Maurício não deu muita importância à coincidência.
- É verdade. Mas ouça o que diz o programa social: “Dia 19: ‘Boite-show’, com início às 21 horas e término à 1 hora. Atração principal: Charles Trenet, o criador de ‘La Mer’ com Ferreira Filho e sua orquestra. Traje: Passeio Completo”.
- Charles Trenet! Como fez sucesso, lembra-se? Acho que ainda canta...
- Nada, já deve ter morrido. E Ferreira Filho? Era o titular dos salões do Fluminense. Uma beleza de conjunto, com a marca do bom gosto...
Maurício interrompeu bruscamente o seu comentário.
- Murilo!
- O que foi?
 -Acabei de me lembrar por que guardei esta revista!
- E por que foi?
- Nesse dia, 19 de janeiro, aconteceu um fato insólito - nunca esta palavra foi tão bem empregada - lá no clube. Por isso assinalei esta data. Lembro-me agora, aquela “boite-show” para mim foi memorável!
- Por que? Começou ou acabou algum namoro?
- Nem uma coisa, nem outra. Na verdade eu estava um tanto aborrecido por estar sem ninguém. Você me conhece. Eu nunca fui muito “entrão” com as meninas, gostava mesmo era de ter uma namoradinha certa. Lembro-me que tinha ido ao clube naquela noite apenas para assistir o Charles Trenet. Afinal, era uma atração internacional.
- Que eram raras, na época. E eu me lembro que perdi aquela “boite-show”, não sei por que motivo.
- Muito raras. Mas todos os artistas que vinham ao Brasil, ou quase todos, apresentavam-se no Fluminense. Eu não perdia nenhum daqueles shows. Estava firme, uma vez por mês, com a turma de sempre, todos nós impecáveis em nossos trajes “passeio completo”.
- Eu era um dos mais “engomados”... Mas afinal, o que houve naquela noite?
- Eu vou lhe contar:
Os três salões estavam repletos, e Ferreira Filho atacava de “Frio en el alma”. Nós, andando de um para outro lado, examinando as meninas, comentando os namoros, enfim...  as mesmas coisas de sempre.
De repente, um tipo estranho saiu do toalete. Roupas bizarras, largas e coloridas, cabelos grandes e encaracolados. Usava óculos redondos, de aro de metal, que na época me pareceram iguais aos de minha avó.
Ninguém entendeu nada. Olhamos uns para os outros, depois para ele. O rapaz parecia um pouco mais velho do que nós, talvez tivesse uns vinte e cinco anos, sei lá. Contrastava conosco em tudo, desde os nossos austeros ternos e gravatas aos cabelos impecavelmente domados por poderosas brilhantinas. Ocorreu-me que talvez fosse figurante no show. Mas não, a atração era um “chansonier”, portanto não haveria, nem antes ou depois, o clima para espetáculos de circo.
Mas o que me marcou muito foi o rapaz estar... apavorado! Literalmente apavorado, quase em estado de choque! Assustado, agia como se fosse louco, olhando para tudo e para todos. Estava a ponto de estourar.
Ficamos frente a frente. Ele fitou-me e disse, em voz baixa, enquanto me segurava pelos dois braços:
- Que brincadeira é essa?!
- Brincadeira? - eu lhe respondi, enquanto me soltava de suas mãos, que me apertavam nervosamente - Eu é que não estou entendendo. Você faz parte do show?
Eu sabia que não, mas foi a única pergunta que me veio à cabeça.
- Eu não faço parte de nenhum show! Eu sou sócio! Eu sou sócio!
Tentei puxar conversa com ele, enquanto andávamos pelo salão. Fui com ele para uma das varandas laterais, mas ele não se sentiu aliviado com o ar fresco da noite, como eu esperava. Debruçou-se no parapeito, olhando longamente para os carros que chegavam e partiam.
- Você bebeu? - arrisquei perguntar.
- Eu não bebi nada! Eu não sei de nada... Meu estomago está dando voltas...
Achei que ele ia desmaiar. De repente, levou a mão à boca e voltou correndo para o salão, em direção ao toalete. Fui atrás, mas já com dificuldade. O show já ia começar e nessa hora a movimentação para garantir um bom lugar era grande.
Nesse ponto, Murilo, que ouvia atento, interrompeu-o:
- E então? Conseguiu alcançá-lo?
- Não. Bem... na verdade, nunca mais o vi.
- Como? Nunca mais o viu?
- Eu nunca lhe contei esta história?
- Não, para mim tudo isso é novidade.
- É estranho, estávamos sempre juntos naqueles shows...
- É, mas eu perdi Charles Trenet, não lhe disse? Talvez por isso...
- Mas deixe-me continuar: Quanto tentava alcançá-lo, correndo também para o toalete, alguém da nossa turma parou-me por um instante, chamando-me para ver o show. Bastou isso para, quando cheguei ao toalete, já não mais o ver. Estava vazio. Conseguira sair sem que eu o visse. Mas havia esquecido seus óculos redondos em cima do lavatório.
Maurício voltou-se para o baú procurando alguma coisa entre os seus guardados.
- Olhe...
Eram os óculos, que estendeu para o amigo.
- Curioso - disse Murilo - São realmente parecidos com os da vovó... Mas é um modelo que está se usando por aí, novamente.
- É, a moda é assim mesmo. Vai e volta.
- E então, sobre o rapaz? Mais nada?
- Mais nada. Evaporou-se. Mas como estava assustado! Fiquei sem jamais saber por quê. Enfim, deixei o toalete, guardei os óculos no bolso e fui assistir o Charles Trenet. Afinal, não poderia perder o espetáculo.
Maurício então começou a relembrar os velhos tempos do Fluminense, enquanto brincava com o par de óculos que Murilo lhe devolvera. O assunto desviou-se, mas continuava nostálgico.
- Meu caro, aqueles shows eram realmente muito bons! Não fossem aquelas festas, nós jamais teríamos assistido Louis Armstrong, Pedro Vargas, Carlos Ramirez, Billy Eckstine... Os ídolos da época.
- Os ídolos de hoje dão shows para milhares de pés-soas de uma só vez.
- É. O que era privilégio de poucos hoje está massificado. É pena que a “galera” grita tanto que nem ouve o artista. E nem vê, de tão longe que assistem... Não fossem os telões...
- Ainda assim, vale a pena para quem nunca viu coisa melhor.
Murilo olhou o relógio, preocupado com a demora da visita. Estava ficando tarde.
- Maurício, já passa da meia-noite. Já vou indo. Como disse o seu médico, o que cura uma gripe é o repouso, não estas reminiscências até altas horas.
- Mas uma gripe se cura também com um bom papo. Fique por aqui, ainda falta meio baú...
A nostalgia continuaria, alimentada por aquele baú mágico, não fosse a chegada de Gustavo. Para uma noite de sábado, até que vinha voltando cedo.
- Olá, meu filho. Mas, já em casa a essa hora? O que houve?
- É, Gustavo. Sábado à noite não é para se estar em casa a essa hora. Deixe isso para seu pai e eu...
Gustavo entrara um tanto calado.
- Pois é, seu Murilo. Mas eu não estou legal.
- Que houve? Você não estava na discoteca? Está um pouco pálido!
- Não sei. Uma loucura.
Gustavo falava enquanto olhava alternadamente para o pai e para Murilo.
- Se eu lhes contar, vocês vão achar que estou ficando maluco.
- Ora, por que pensaríamos?
- Por que? Olhem só o que me aconteceu: Cheguei ao clube, fiquei rodando com a turma, como sempre. Tudo normal. Em certa hora, fui ao lavatório. Quando saí... vocês não vão acreditar...
- Em que?
- Eu dei de cara com uma festa - outra festa, não era a discoteca - inteira, completa, igualzinha àquelas do seu tempo, que você às vezes relembra, comentando comigo! Tudo real, pai! Falei com os rapazes, toquei neles, ouvi a orquestra tocando o maior bolero... Vi os carros, na rua, eram os da sua época de rapaz...
Olha... senti um tremendo mal estar, achei que meu estômago ia sair pela boca. Só tive tempo de correr de volta para o lavatório e me aliviar... Acalmei-me um pouco, lavei o rosto, molhei a cabeça e fiquei parado olhando-me no espelho, criando coragem para enfrentar de novo aquela loucura... Enfim, resolvi sair. Pois bem - no salão, a discoteca estava comendo solta, normalmente...
Maurício e Murilo, eles sim, agora pareciam estar em estado de choque. Imóveis, as palavras não saíam, presas na garganta. Gustavo ainda mais se impressionou com o mutismo dos dois.
- Pai, diga alguma coisa! Será que estou tão ruim assim?
Maurício não tirava os olhos do filho.
Ali estava o rapaz de roupas bizarras, largas e coloridas, cabelos grandes e encaracolados... sem os seus óculos...
Lentamente, estendeu-lhe a mão e conseguiu falar, num fio de voz:
- Olha, filho... os seus óculos... Você os esqueceu no toalete...