sexta-feira, 12 de novembro de 2010

MICROMACRO

Direitos autorais garantidos

Sentiu seu pijama frouxo, largo no corpo. Desfez o laço da calça e o refez, bem apertado. “Estou emagrecendo...” - pensou. Deitou-se. Resolveu ler um pouco, para chamar o sono. Tomou o livro nas mãos, estranhou seu peso. Teve dificuldade em erguê-lo. “O que está havendo comigo?”- perguntou-se, em voz baixa - "Sinto-me fraco, parece-me estar definhando...”
Não estava definhando. Era então o seu quarto que crescia, avolumava-se, expandindo-se aos seus olhos? Os objetos, as paredes, o teto pareciam-lhe estar se afastando, aumentando as proporções entre ele e o resto do aposento. O cadarço da calça, passados uns momentos, já pedia novo reajuste, que o quase pânico não permitiu que fosse feito. Os braços começavam a desaparecer dentro das mangas do pijama. O livro, agora muito maior, pesava-lhe nas mãos a ponto de deixá-lo cair sobre a cama. De repente os óculos rolaram-lhe do nariz.
Mas não era o seu quarto que crescia. Era ele que via seu tamanho reduzir-se, lentamente. Já tinha agora o corpo de uma criança, uma criança que lutava para se desvencilhar das roupas enormes que lhe tolhiam os movimentos.
A noite estava muito quente, mas o suor que o banhava da cabeça aos pés não era causado pela temperatura elevada e sim pelo pavor que tomou conta dele. Pensou em chamar o irmão que dormia no quarto ao lado, ou seus pais. Mas a sua regressão física era geométrica. Cada vez mais e mais rapidamente se processava. Seu tamanho já era tal, que se quisesse descer da cama, por certo não conseguiria. Poderia também gritar à vontade, que não seria ouvido. E a lâmpada da cabeceira tornara-se um sol no seu firmamento, cada vez mais distante.
Seu raciocínio, porém, não se alterara. Lúcido, embora embotado para o que seria ilógico. Em nada havia lógica. Via as transformações se processarem cada vez com mais rapidez, e sentia-se cada vez menos capacitado a tentar qualquer explicação. Só sabia que tudo em sua volta crescia, crescia, num ritmo desconcertante.
O lençol era uma vastidão branca que encostava nos limites do seu horizonte, como se fosse um campo de neve com suas monótonas ondulações, iluminado por um sol amarelo e artificial.
Estava já numa sebe de pequenos arbustos, que, sempre crescendo, começaram a parecer-se com um emaranhado de cipós brancos, altos, enormes e trançados. No constante processo de redução se viu a cavaleiro em um fio, que em crescimento vertiginoso, ou antes, em sua redução vertiginosa, agora era um espaço plano, onde ele, de pé, nada podia fazer senão esperar.
Conseguiu um arremedo de raciocínio, imaginando já estar no universo molecular. Era um mundo pastoso onde ele sentia dificuldade de locomover-se; sufocava, sentiu-se ameaçado e engolido por monstros viscosos, que sabia não serem produtos de sua imaginação. Mas mesmo essa fase do processo já ia ficando para trás, e, sentindo-se bem menor do que uma molécula, refugiou-se compulsoriamente no espaço vazio entre os átomos.
Estaria ainda no lençol ? Não sabia. O mundo era vivo à sua volta. Vivo, palpitante. Não um mundo - um universo. Um universo, preenchido por muitos e muitos mundos, esferóides como a própria Terra, que passavam flutuando em vertiginosa carreira.
Onde a solidez de sua cama, de seus lençóis, de todas as coisas que lhe eram tão familiares? Não sabia. Ele também flutuava, imponderável, embora agora muito maior do que todos aqueles corpos celestes, obedecendo a todas as leis de atração e repulsão. Nada se tocava; tudo, em todos os sentidos e direções, movimentava-se num incrível equilíbrio de movimentos e massas.
Era um Universo! Aos poucos conseguia encaixar seus parcos conhecimentos de relatividade naquela situação absurdamente irreal. Diminuía, diminuía sempre. Entretanto, estava muitas vezes maior do que a maior das galáxias daquele sistema. Também os pensamentos tomavam conta de sua mente com surpreendente velocidade, e com a mesma velocidade sendo substituídos por outros.
Tempo? Onde estava o Tempo, senhor absoluto das nossas vidas? Onde estava o Espaço, naquela mutação constante de micros e macros que se revezavam?
Imaginou todos aqueles sistemas galácticos, que não paravam também de crescer, cada um com incontáveis sistemas solares, cada sistema com seus planetas, cada planeta, quem sabe, com suas luas. E vida! Vida dentro da vida, civilizações inteiras dentro de um átomo de um lençol... E quantos átomos haveria em um lençol!
Era a constatação do Infinito, ausência de tempo e de espaço, ainda incompreensível para ele.
Já não estava menor do que aqueles mundos. A sua respiração, o pavor inicial, tudo havia passado. Ele continuava flutuando, fazendo parte daquele equilíbrio de massas, embora fosse o único corpo do imenso conjunto em constante mutação. E o seu mundo, onde estaria?
Seu tamanho já era tão insignificante quanto a influência de sua massa na atração da matéria, naquele complexo astral. Em volta de si havia um firmamento estrelado, tal como via da Terra. Agora sabia que nada era tão firme que merecesse essa denominação... Havia atravessado esse firmamento, havia sido maior do que qualquer um naqueles astros, maior do que todo o universo visível reunido; e agora ali estava, prestes, pela lógica, a orbitar um daqueles sóis.
Só então lhe veio novamente ao pensamento a idéia de tempo. Por quanto tempo estaria viajando por aquela estranha dimensão, que já não lhe causava mais mal estar, medo ou qualquer outra sensação?
Imaginava-se já em órbita de algum astro ou planeta e que esta órbita não deveria ser fixa, uma vez que vendo sua massa diminuir incessantemente, tal mundo chegaria cada vez mais perto até engoli-lo, sabe-se lá como.
Não estava errado. Começou a agigantar-se diante de seus olhos um dos corpos celestes do éter que o envolvia, e uma forte pressão começou a se exercer em todo o seu corpo. Não era desagradável. Apenas uma pressão indefinida, que aumentava gradativamente, até fazê-lo sentir-se em incontrolável queda livre.
Libertara-se da órbita que o mantinha preso e estava sendo atraído por um campo gravitacional poderoso, tal como tantas vezes fizeram as cápsulas espaciais em seu mundo. Foi a melhor comparação que lhe veio à mente.
A sensação de pressão foi sendo substituída por ligeiro mal estar e respiração ofegante. Só então percebeu que não se lembrava de ter respirado, durante toda aquela inusitada experiência... “Devo ainda estar vivo.” - pensou. E não viu nem sentiu mais nada. Perdeu os sentidos.
Voltou a si com um choque um tanto violento no que lhe pareceu ser água. E era. Salgada, fria, sob um céu estrelado, como o mar que ele conhecia tão bem. Olhou em volta. Não era, entretanto, um mar sem fim. Havia uma praia, a poucas braçadas de onde estava. Ainda atordoado, lançou-se a ela, esperando encontrar segurança no que lhe parecia terra firme.
Completamente despido, arrastando-se pela areia, examinou o local onde caíra.
Era a sua praia, de todos os dias... Era o seu bairro; as ruas, as casas, tudo ali bem na sua frente.
Sem pensar, completamente nu, correu como um louco, pelas ruas desertas - devia ser madrugada - em direção à sua casa.  Galgando a janela do seu quarto, lançou-se por ela com tamanho ímpeto que mais parecia estar sendo perseguido por todos os monstros do universo. Pôde ver então, ainda ofegante, sua cama desfeita, seu pijama sobre o lençol em desalinho, o livro aberto e o “sol artificial” ainda aceso.
Não se deitou, jogou-se na cama. Ali ficou, sem noção de tempo, de espaço, e até de família. Novamente sem capacidade para pensar. Cercado de tudo o que mais conhecia, de sua intimidade, viu-se, entretanto no maior dos vazios desde o início daquela insólita experiência, até ser vencido pelo sono, muito tempo depois.
Acordou suavemente, descansado e tranquilo, porém consciente de tudo o que se passara. Olhou o relógio: 7:30. Permitiu-se a uma divagação: estaria do seu mundo? Ouvia vozes, ruídos da rua, como todos os dias, e por certo seus familiares àquela hora estariam aguardando-o para o café da manhã. Mas seriam mesmo os seus familiares?
Repeliu, por tolices, estes pensamentos, mas não deixou de lado outros que vinham aos borbotões. Algo lhe fazia recusar a idéia de ter sido um formidável pesadelo acompanhado de uma crise sonambúlica, talvez, que houvesse culminado com um banho de mar em plena madrugada. Ao mesmo tempo não conseguia repelir a possibilidade de ter tido o seu tamanho micrometricamente reduzido até estacionar em um mundo fantasticamente igual ao seu.
Correu novamente os olhos pelo quarto. Estava tudo na mais perfeita normalidade. Sentia-se completamente impotente para concluir qualquer raciocínio, mas ainda assim reviu a hipótese do sonambulismo e resolveu adotá-la. Adotá-la, mas não aceitá-la; satisfazer-se com ela, por absoluta incapacidade de aprofundar-se em divagações.

Tomou um bom banho, livrou-se do sal que o mergulho no meio da noite lhe deixara no corpo, vestiu-se e foi juntar-se à família, que tomava a primeira refeição do dia. O incidente ia aos poucos tendendo para o esquecimento, seria apenas mais um desses sonhos absurdos que às vezes nos pregam peças fantásticas. Narrou, durante o café, o “pesadelo” que tivera, tendo o cuidado de omitir o mergulho na madrugada e a volta para casa, correndo nas ruas completamente despido...

Em seu quarto, entretanto, um pequeno detalhe lhe passou despercebido: o seu pijama, em desalinho, estava com a blusa abotoada e o laço do cadarço da calça não havia sido desfeito...

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

O ARMAZEM PÃO DE AÇÚCAR


         





Era naquele prédio que hoje é brancão, lá do lado esquerdo, aí na foto.
Ficava na esquina da praia de Botafogo com a rua Farani. Naquele tempo não existiam supermercados, apenas armazéns lusitanos, que eram lojas onde se vendia de quase tudo, mesmo porque, o tudo de então era quase nada. Basta imaginar que, entre outras coisas, não existia artigos de plástico - vivia-se sem o plástico, o que hoje seria impossível.
Do lado de fora e em frente ao balcão tinha umas caixas grandes com a tampa inclinada, onde ficavam os grãos - feijão, arroz, milho, etc, e também farinha, fubá, farinha de trigo, enfim, tudo que pudesse ser vendido a granel, uma vez que nada era ensacado ou industrializado, exceto açúcar e sal. Perto da porta, em sacos de aniagem, enormes, com a borda dobrada para fora, estocava-se a batata, a cebola, os produtos mais brutos. Em saqui-nhos menores, alpiste, semente de girassol.
A geladeira era daquelas de portas de madeira com o compressor em cima, basicamente para estocar o guaraná e as cervejas e mais alguns produtos perecíveis, como manteiga a granel e quei-jos, que não raro acabavam realmente perecendo, dado a pouca eficiência do equipamento.
Nas prateleiras, as garrafas - vinagre, mel, e a “lataria”, que se resumia a salsicha tipo viena, manteiga Miramar, molho de tomate, azeite português, marmelada Colombo, queijo-de-bola Palmyra, leite condensado, sardinha (com aquela chavinha soldada na tampa, que arrebentava no meio da abertura), e mais alguma pouca coisa. Mais para trás, uns vidros grandes com ameixas secas, pickles, que só de pensar nele doía meu maxilar, lá perto das orelhas, e, boiando na salmoura, azeitonas ou tremoços. Em cima do balcão, além da balança Filizola e da máquina de moer café, o queijo curado, os ovos, estocados em cestas de arame e que eram embrulhados quatro a quatro em papel de jornal, a carne seca e rolos de fumo para mascar, com aquele cheirinho empestando todo o ambiente. Penduradas num arame, tripas de linguiça e salaminho. Atrás do balcão, um português, sempre.
E havia os cadernos. Quem inspirasse confiança ao português era “freguês de caderno”, expressão que acabou atravessando épocas. A gente levava o dito, fazia as compras e ele anotava. No fim do mês “acertava-se o caderno”, isto é, fechava-se a conta e começava tudo de novo: “Seu Joaquim, vim acertar o caderno”. Já se sabia que se ia levar de brinde uma lata de biscoito Aymoré ou meio quilo de ameixas secas. E não era para bajular o freguês, era pura cortesia.
O Rio ainda era uma cidade do interior metida a besta...    

O RENDEZ-VOUS


                                                 
    

INFÂNCIA


 Este aí ao lado é o Barão de Itambi. Não tem nada a ver com o rendez-vous, só deu nome à rua. 
Era bem em frente lá de casa.  Rua Barão de Itambi, 23. Rendez-vous para executivos, embora naquela época não houvesse essa expressão. Os senhores respeitáveis entravam separados das mulheres, e estas não tinham aquela típica pinta de marafonas. Eram moças de aspecto normal, entrando numa casa normal, sempre à tarde, como para visitar uma tia normal. Só que todo mundo sabia que era uma “casa de encontros suspeitos”. Movimentação muito discreta, em nada incomodava os outros moradores da rua. Nunca se via a cafetina, tampouco nenhuma das moças morava lá. A casa era a avó dos motéis de hoje.
Tudo bem, tranquilo, até o dia em que aconteceu ‘aquilo’. Se a casa era suspeita, o movimento naquele dia foi suspeitíssimo. Um entra e sai de gente, falatório, os vizinhos, embora de butuca atenta, na encolha, porque não ficava bem a gente ficar espiando aquele tipo de coisa. A gente, não, os adultos, porque nós éramos rapidamente postos para escanteio. Enfim, foi desvendado o mistério. Um dos executivos, no afã de dar conta do recado, não conseguiu executar o planejado e acabou batendo as botas em cima da rapariga. De repente, parou com os movimentos característicos, bufou e extenuou-se. A menina achou que ele já tinha acabado, e ficou esperando que ele a livrasse do seu incômodo peso. Mas ele, nada. Como estava demorando muito, ela pediu-lhe providências, que não vieram. Só então constatou o inusitado óbito. Dizem que de cá de fora ouviram o seu grito, mas deve ser mentira. Cada um que conta, aumenta um ponto. Viram sair de dentro da casa, no meio do burburinho formado, um embrulho do tamanho de um homem, que foi colocado em um carro. E foi só.
No dia seguinte, o movimento era normal, e nunca mais se falou nisso.

INFÂNCIA


                                                             


                                   A CASA







Rua Barão de Itambi, 18. Uma casa enorme, maior do que a da rua Oto, de dois pavimentos, com dois salões e seis quartos, copa, cozinha, um quarto de empregada, tudo grande, em centro de terreno, e um bom quintal. Fora, além da garagem, tinha outra construção, com três cômodos e um banheiro, onde Chiquito logo fez uma pequena obra e instalou o laboratório do Iodóris. Muito melhor do que na garagem da rua Oto, mas ainda bastante precário para os padrões de hoje, era ali, no entanto, que era fabricado, embalado e despachado para as farmácias. Havia o Sr. Edmundo, que fazia as entregas e creio que também a propaganda junto aos dentistas. Era um senhor já de certa idade, bem modesto. Lembro-me de uma sua particularidade: ele tomava média com pão e manteiga, nos botecos, e deixava o garçom encher a xícara até a boca, sem colocar o açúcar. Assim, quando o colocasse, derramava um pouco no pires e ele tinha mais um gole para beber.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

OS SORVETES DO FRANCISQUINHO


                                   
 
         INFÂNCIA


      

       Na rua General Canabarro, pros lados do Colégio Militar, tinha a sorveteria do Francisquinho. Era uma festa quando sobravam cem ou duzentos réis do meu escasso dinheirinho. Cem para o picolé, dos redondos, que o retangular era mais caro, ou duzentos para a casquinha. Eu gostava de ver a máquina rodando, misturando a massa do sorvete, que era feito ali, na cara da gente. 
      Ao lado, tinha a barbearia.


       Davam-me quatrocentos réis - aquela moeda enorme, quase do tamanho da minha mão - para eu cortar o cabelo, à la “Príncipe Danilo”. Era a conta, não tinha troco. Quando eu acabava, entrava na sorveteria e ficava só olhando para dentro da misturadora de fazer os sorvetes. Olhando e mais nada. Um dia me deram uma moeda de quinhentos réis. 
 

       Não precisa dizer que com o troco comprei um picolé. De uva. Gostava do de uva, porque eu dava um chupão mais forte e ele ficava todo branco. Gelo puro.
      Num dia daqueles de calor de 40 gráus, Júlia me levou para tomar um sorvete. Quando atravessávamos a rua General Canabarro, pisei no trilho do bonde. Ele estava tão quente que queimou a sola do meu pé. Voltei dali mesmo, chorando, no colo da Júlia. 
      Naquele dia não teve sorvete.

sábado, 6 de novembro de 2010

A IGREJA DA COLINA





Fevereiro - 2006 - Direitos autorais garantidos


Amâncio era um cara boa vida, brincalhão, sempre mexendo com todo mundo, alegrando toda a cidadezinha, – uma cidadezinha pequena, perdida no interior de Minas Gerais – que nem parecia ter a idade que tinha.
Mas, de uns tempos pra cá, ele já não era mais o mesmo. Também, com tudo o que aconteceu, não era de se estranhar.
Desde que chegaram os homens pra construir a barragem, avisando pra todo mundo que a cidade ia ser inundada, que Amâncio viu que a história não ia dar certo. Eles iam construir ou-tra cidade, perto dali, é verdade. Mas nunca seria a mesma coisa.
Mas não ia dar certo não era só pra ele, não; pra todos, ninguém estava achando bom, imagina, trocar de cidade, ser levado lá não sei pra onde, praquelas casinhas todas iguais... Ninguém ia ter mais a sua identidade, não, ia ser tudo igual, as casas enfileiradas uma ao lado da outra...
Ih, Amâncio ficou muito triste, muito triste... Risoleta então... Eles já estavam velhos, lá com seus sessenta e não sei quantos anos, mudar de vida naquela idade... Pros moços, tudo bem, vá lá, cidade nova, vida nova, todo mundo estava feliz. Mas ele mais Risoleta e meia dúzia de velhos... não iam achar graça naquilo, entende? Não iam mesmo achar graça.
E muito menos graça achava o padre. A igreja era no alto de uma colina, pertinho da cidade. Todos os domingos tinha a missa, era aquela romaria. O pessoal subia a colina, - um aclivezinho suave, mas que bastava ser uma colina pra não ser atingida pelas águas do lago, aquele lago que ia se formar, que ia submergir toda a cidade - subiam todos, conversando, botando as modas em dia, aquilo já fazia parte da rotina dos domingos.
A igreja era de N.S. da Boa Vista, que tinha esse nome não era à toa, a vista lá de cima era uma beleza. A gente via a cidade toda. Uma construção já com seus quatrocentos anos, trezentos, sei lá, um negócio assim. Pequenina, era mais uma capela do que uma igreja. Simpática, sozinha na colina, que era toda descampada, não tinha árvore nenhuma... Era muito bom, todo domingo aquele pessoal indo pra igreja. Pra ser procissão, só faltava o andor...
Amâncio acompanhava a construção da nova cidade sempre, a umas quatro, cinco léguas dali. De vez em quando ele ia lá, conferir. Eram as casinhas, era o mercado, era a farmácia, os homens estavam construindo tudo. Construíram até uma outra igreja, mas uma igreja muito sem graça... nova, toda bonitinha, mas... sem graça...
Então, quando estava tudo mais ou menos pronto, que a firma começou a providenciar a mudança do pessoal, o padre, num domingo, na hora do sermão, falou:
- Eu não vou. Eu vou ficar aqui na minha igreja, não sei se vai ter gente pra vir aqui, não sei. Mas eu vou ficar aqui na minha igreja, eu não vou.
- Mas, seu padre, a gente precisa de um padre lá, a gente precisa de igreja na cidade nova... Igreja já tem, mas o senhor diz que não vai?
- Não vou. Tô muito velho, tenho aqui a minha casinha atrás da igreja, tenho aqui a minha horta, tenho aqui meus dois, três cabritos, não vou pra lá não.
E não foi mesmo. Mudaram-se todos, mudou-se o Amâncio mais a Risoleta, e tiveram que arranjar outro padre, que ficou lá na igrejinha nova, tudo direitinho.
Amâncio era uma tristeza só. Alem de mudar de casa a contragosto e ir pra uma casa nova que não tinha nada a ver com a sua, ainda ficou sem os domingos na igreja.
Lembrava-se tão bem... Cá em baixo, no pé da colina, tinha uma mangueira enorme, uma árvore frondosa, bonita, com uma bela de uma sombra aconchegante... Todo domingo de manhã, ele gostava de ir pra lá, com a Risoleta. Sentavam debaixo da mangueira e ficavam jogando conversa fora, até que ia chegando o pessoal pra missa. Então eles se levantavam e acompanhavam os outros, subindo a colina naquela conversa, naquele papo, e assistiam lá a missa. Na saída, a mesma coisa, depois... iam todos embora pras suas casas, cuidar do almoço.
E agora?
Como é que ia ser? Não tinha a mangueira, não tinha o padre, só tinha aquela missa sem graça, todo mundo entrava e saía, batia um papinho... As pessoas eram as mesmas, mas os velhos, principalmente, estavam muito tristes. Tinham perdido a memória toda – memória que tinha ficado debaixo da água, naquele lago bonito...
Os rapazes e as moças não estavam nem aí, iam tomar banho no lago, arranjaram até uns barquinhos, uma beleza. Mas os velhos não aceitavam aquilo.
Passaram-se uns anos, o padre continuou na igreja da colina. De vez em quando alguém ia lá, batia papo com ele, mas foi indo, foi indo, até que ninguém mais foi.
Nem mais foi ninguém lá.
Correu o boato que ele tinha morrido, umas duas ou três vezes que alguém voltou encontrou a igreja fechada, e no fim ninguém mais se interessou pela história.
Depois de algum tempo, o Amâncio ficou sem a Risoleta. Ela ficou doente - doença de tristeza, talvez, não sei,que naquele tempo acho que não tinha nenhum médico na cidade, pra diagnosticar as coisas. Foi indo, definhando, definhando... morreu. Também já estava lá com seus setenta e tantos anos, isso não era motivo, mas, juntou tudo, a Risoleta morreu.
Aí que o Amâncio ficou mais triste. Não tinha mais sua cidadezinha, não tinha mais a sua igreja, não tinha mais o seu padre... e agora a Risoleta?
Nem mais quis ir na missa da igreja nova. Em vez disso, todo domingo de manhã ele caminhava as cinco léguas até chegar na mangueira. Chegava lá, sentava debaixo dela, recostava naquele tronco amigo e ficava olhando pra igreja, lá no alto, saudoso. Ainda pensava:
- Ai, meu Deus, se pelo menos Risoleta ain-da estivesse aqui comigo...
E ficava ali, cismando... Quando era no horário de acabar a missa, voltava pra casa, pra sua casa novinha, pintadinha, e... sem graça.
E o tempo passou. Os velhos da cidade foram morrendo, foram dando lugar pros novos, e toda aquela história da cidade velha, submersa, aquilo tudo foi caindo no esquecimento.
Amâncio, no entanto, continuava firme na sua rotina. Todo domingo lá ia ele pra baixo da mangueira, ficava olhando aquela igreja, chegava quase a acompanhar uma missa, sem padre mesmo, cá de baixo. Voltava pra casa, fazia sua comidinha de domingo, morava sozinho, ele mesmo cozinhava, e ia passando o tempo.
Então, num desses domingos em que estava lá sentado debaixo da mangueira, olhando pra igreja, falou assim, falou pra si mesmo:
- Será que esse padre morreu mesmo?...- e fez uma pausa no pensamento - Mas é hoje que eu vou ver isso. Eu vou subir essa colina e vou até lá na igreja. O pessoal fala, fala, mas ninguém nunca mais foi lá.
E assim fez.
Subiu o morro, a igreja estava fechada. Rodeou, pelo lado, e quando chegou atrás da igreja, teve uma bruta de uma surpresa.
Deparou com o padre, velhinho, cuidando da horta... Ali, com a enxada na mão, a horta bem bonitinha, a casinha dele lá trás, tudo no jeito. Não conteve o espanto:
- Oi, seu padre! E não correu o boato que o senhor tinha morrido?... Que tava abandonado isso aqui tudo...
- Oi, Amâncio, cê tá bão, meu velho? Que abandonado que nada! Vem cá, deixa eu te mostrar como que tá a igreja...
Abriu-a pela porta de trás, que dava no altar. Estava toda arrumada, direitinha.
- Mas, seu padre, quem que vem aqui, seu padre, pra estar essa igreja assim toda arrumadinha desse jeito?
- Ah, Amâncio, vem muita gente, vem muita gente... Você quer ver? Agora mesmo, tá quase na hora da missa. Eu vou rezar a missa... Você vai ver como vai chegar gente. Você vai ver só.
Enquanto o padre arrumava as coisas no altar, pra rezar a missa, Amâncio ficou do lado dele, olhando a igreja. Estava vazia, ainda. Aí chegou um, chegou outro, chegou mais outro, foi chegando gente...
Amâncio olhava praquelas pessoas... e não estava entendendo nada.
- O quê que é isso, quê que essa gente toda tá fazendo aqui?
E continuava a entrar gente. Todos conhecidos dele. Até que uma hora, o padre já estava vestido pra rezar a missa, já estava no altar, quem é que entra?
Risoleta.
Amâncio olhou pra ela... olhou pro padre... e ficou com uma pergunta muda na boca.
O padre só fez sorrir pra ele. E falou:
- Vai lá ter com ela, homem... Vai ter com a tua mulher...
Amâncio olhou pra Risoleta. Ela estava sentada na última fila, sorrindo. Ele foi devagarinho, chegou perto dela, e falou:
- Risoleta! Você tá aqui? Como é que pode?
Ela não se assustou.
- Oi, Amâncio... Você veio me ver, Amâncio... Que beleza... Tô tão feliz, tô tão contente de você tá aqui me vendo...
Ele sentou do lado dela, a missa já ia começar. Então, deu a mão a ela, apertou bem aquela mãozinha enrugada, e disse assim:
- Ah, Risoleta... Eu não tô entendendo nada... Mas eu vou te dizer uma coisa: eu não vou mais sair daqui, eu não vou te deixar mais nunca... Não vou te deixar...
Ela olhou pra ele com todo o carinho que tinha... Sorriu, encostou a cabecinha branca no ombro dele, suspirou fundo, e... não disse nada. Ficou ali.
E o padre começou a rezar a missa.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

CONVIVÊNCIA




       Conviver é uma arte, mas sem teatro e sem palco, muita representação. Nós todos somos artistas, sempre com muita platéia prestando toda a atenção em tudo o que a gente faz. Por isso fica difícil conviver com o nosso irmão.
          A vida é difícil, sim, compõe-se de mil nadinhas, picadinhas de alfinete, que parecendo inocentes acabam por nos ferir, de tão pequenas que são. Mas tocam-nos nas raízes que ainda não conseguimos extirpar do coração, e deixam-nos cicatrizes difíceis de se ocultar, que quando menos se espera aparecem doloridas num gesto pouco feliz, num olhar sem compreensão, transformando um pensamento em falsa palavra rude que não se queria ouvir.
          Assim como quem recebe, tampouco aquele que lança o sutil dardo de fel há de sentir-se feliz. Talvez não saiba, sequer, por que fere seu irmão. Por que a necessidade de pô-lo à prova, de vê-lo crivado pelo aguilhão?
           Mas é de ambos a prova, e é certo que mais dia, menos dia a vencerão. Ou cessam, de um lado, as flechas, ou aquele que as recebe as transformará, por certo, em plumas, que sutilmente irão tocar-lhe o coração.
          Viver é difícil, sim. Não, viver, mas conviver, porque ninguém é sozinho, ninguém, ninguém nessa vida consegue ser ermitão. A vivência é automática, começa cortando o cordão. Mas a convivência, não, essa tem que ser treinada todo dia, a toda hora, treinada com o coração.
          Pois é, viver é bem fácil, conviver é que é difícil...